'Morde e assopra' com Moraes é praxe de Bolsonaro

Após ataques a Alexandre de Moraes, Bolsonaro senta ao lado dele na posse para a presidência do TSE

por Alice Albuquerque qua, 17/08/2022 - 20:44
Divulgação/TSE Bolsonaro e Lula de frente em solenidade do TSE Divulgação/TSE

O ministro Alexandre de Moraes é o novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tendo assumido a cadeira nesta última terça-feira (16). Com campanhas eleitorais nas ruas, a atenção se volta para como o TSE irá combater - principalmente -, as fake news e os ataques às urnas inflados pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores. 

O professor e doutor em Ciência Política, Antonio Henrique Lucena, um dos signatários da Carta pela Democracia, avalia que o discurso de Alexandre de Moraes foi “duro”. “Eu classificaria como um discurso muito afirmativo e também duro. Ele, em grande medida, entregou as coisas de forma extremamente clara. Basicamente, o discurso dele teve dois focos: urna e democracia. Acredito que Bolsonaro não tinha noção que o discurso de Moraes seria tão contundente”, comenta. 

Por sua vez, o professor da UFPE e cientista político, Arthur Leandro, afirma que Moraes fez um discurso “esperado”. “Não houve nenhuma surpresa. O que teve de mais simbólico foi o fato de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu a presidência do TSE, é aquele com quem Bolsonaro tem mais se chocado e mobilizado a opinião pública contra a pessoa desse ministro”.

Com a presença de autoridades dos três Poderes da República, o ministro defendeu em seu discurso o regime democrático, enalteceu a confiança no voto eletrônico e prometeu rigor no combate à divulgação de informações falsas e fraudulentas. Disse ainda que a intervenção da Justiça no processo eleitoral será “mínima, mas célere, firme e implacável no sentido de coibir práticas abusivas e a divulgação de informações falsas e fraudulentas, sobretudo as fake news, como forma de proteger as instituições, o regime democrático e a vontade popular".

Durante o discurso de Alexandre, o desconforto do presidente Bolsonaro, que constantemente ataca o que estava sendo defendido no momento, foi nítido. O mandatário tem colocado em xeque, por diversas vezes, a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro e atacado as instituições democráticas do país. Antes da posse de Moraes, o chefe do Executivo chegou a se encontrar com o ministro no Palácio do Planalto, onde recebeu o convite para o evento. 

“Bolsonaro tem entrado em confronto com as instituições do Poder Judiciário, com o STF e dentro dele, o seu alvo preferencial tem sido Alexandre de Moraes, que está investido na função de presidir o processo eleitoral do Brasil. O desconforto talvez se deva ao fato de que era Alexandre de Moraes proferindo as palavras”, completa Leandro. 

Esperava-se que o presidente parasse com os seus ataques, mas não é bem o que vem acontecendo. Para o doutor em Ciência Política, esse comportamento de Bolsonaro acontece porque ele precisa manter sua base “eletrizada”. “Se ele não consegue fazer isso, corre o risco pesado de perder no primeiro turno, apesar de que, na atual configuração, pelo menos o que as pesquisas hoje estão indicando é que a gente deve ir para o segundo turno”, comenta Antônio Lucena.

O estudioso acentua que “é um jogo muito arriscado porque tem um percentual grande de pessoas que estão indecisas e todas as vezes que Bolsonaro faz um ataque às urnas ele acaba caindo um pouco nas pesquisas, porque esses indecisos acabam migrando para outros candidatos”, avalia.

Com relação ao "morde e assopra" do presidente da República, Arthur Leandro comenta que faz parte do estilo político dele. “Essa duplicidade entre ações mais agressivas, recuos táticos dentro do seu discurso, parece que é a parte da história e do estilo político do presidente. Ele precisa desse tipo de manifestação mais enérgica, mais polêmica. Com isso, ele consegue mobilizar as suas bases e fazer-se percebido já que, ao longo da sua trajetória política, até a candidatura da Presidência, Bolsonaro era um político de segunda linha”, disse. 

Fake news

As notícias falsas foram uma marca da campanha de Bolsonaro em 2018 e, desde então, vem sendo a marca da sua gestão, sobretudo com os ataques ao TSE e ao sistema eleitoral eletrônico, que é totalmente seguro. Com a eleição deste ano já posta, há a preocupação de como fazer com que parte da sociedade não caia nas fake news. 

De acordo com Arthur Leandro, provavelmente não vai haver diferença no volume das notícias falsas com relação a 2018. “Acho que atingimos um nível tal que o volume de desinformação já atende as pessoas que deveria atender. Acredito que há um movimento do ponto de vista das mídias sociais e das autoridades, no sentido de coibir a difusão de notícias falsas”, pondera.

“Existe um fenômeno antropológico que é o viés de confirmação que as pessoas tendem a acreditar e a repercutir aquele tipo de informação, que é o que é mais compatível com os seus interesses e crenças. Existe, sim, uma parcela importante da população que está engajada politicamente por meio das mídias sociais que divulgam notícias, muitas vezes falsas, que levam um tempo para serem verificadas e, neste tempo, a verificação engaja”, pontua o especialista.

*Com Jameson Ramos 

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