O futuro do jornal impresso: impactos do fator econômico

Em projeto experimental apresentado para a conclusão de curso na UNAMA - Universidade da Amazônia, concluinte de Jornalismo Yasmim Bitar aponta as mudanças impostas pelas novas tecnologias

sab, 02/02/2019 - 11:08

Não é preciso estar dentro dos jornais para enxergar a diferença de preço de produção, de lucro e de consumo que as plataformas impressas e digitais apresentam. Leitor fiel de jornais impressos desde 1978, Cezar Cruz, secretário financeiro executivo do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial e Lacustre e das Agências de Navegação do Estado do Pará (Sindarpa), afirma que os jornais digitais são muito mais econômicos, já que as pessoas só precisam ter internet para acessá-los, o que, querendo ou não, provavelmente já vão ter mesmo que por outros interesses e necessidades. Ele também acredita que o preço que é cobrado pelo jornal impresso não corresponde aos gastos e esforços que as empresas têm para produzi-lo. Pensamentos parecidos com os da jornalista maranhense Rita Soares, que após trabalhar por mais de nove anos no Diário do Pará hoje coordena, com outros dois jornalistas, o site de notícias Conexão AMZ. Ela, por experiência própria, assegura que produzir para o meio digital praticamente não exige investimentos financeiros, mas que os retornos também são mínimos.

Valdo Ferreira, diretor de Contas do jornal O Liberal, concorda quando afirma que, economicamente falando, não é possível sobreviver com jornais digitais. De acordo com ele, os principais insumos para a produção do jornal impresso são a tinta, o papel, a chapa de impressão e a mão de obra, já que só na equipe de impressão do Liberal trabalham 11 funcionários. Mas ele não fechou os olhos para as mudanças. Valdo conta que foi necessário mexer no quadro pessoal da empresa e diminuir a qualidade dos materiais utilizados para a produção, até chegar a um “meio termo”, no qual é possível produzir um jornal de qualidade sem gastos excessivos.

A concorrência digital não é a única vilã dessas dificuldades financeiras. Valdo afirma, assim como Hamilton Pinheiro, gerente de marketing e circulação do Diário do Pará, que a crise econômica que o país vive tem grande influência nas quedas dos jornais.  Para eles, só será possível enxergar quanto espaço as mídias digitais roubaram dos jornais impressos quando o país se reestabelecer financeiramente.

Já o cronista Orlando Carneiro chega a utilizar, sentado no sofá da casa onde mora, termos técnicos de engenharia para descrever a atual situação dos jornais e do país. Ele explica que a economia é vaso comunicante, ou seja, as variações financeiras das empresas, incluindo os jornais, são diretamente proporcionais ao quadro econômico do país. Se um cresce ou cai, diz, o outro acompanha.

A pesquisadora Ana Prado confirma que a crise econômica é um dos principais fatores que, junto à nova concorrência digital, afetam os jornais impressos. Bem-humorada, ela explica que em tempos de crise “a primeira coisa que as pessoas cortam não é comida, são coisas que elas podem ficar sem ou obter de outra forma”. Então se a mesma informação contida nos jornais impressos estiver disponível de forma gratuita em outras plataformas, afirma a pesquisadora, a crise levará o leitor a dispensar os jornais tradicionais de papel. Ela também explica que os investimentos dos jornais em suas próprias produções também caem devido à crise: as redações tendem a ser mais enxutas no quadro pessoal e os que ficam passam a ser “Severinos”, já que as funções começam a se integrar e os jornalistas tendem a se tornar multifuncionais, exercendo diversas (se não todas) atividades.

Hamilton Pinheiro, apesar de participar da administração do Diário do Pará, não enxerga as novas tecnologias informativas como uma ameaça ao futuro do jornal. Ele afirma que as mudanças trazidas pelas plataformas digitais afetaram principalmente os jornais que vivem de assinantes. “Esse não é o caso dos jornais da Região Amazônica, onde o maior número de leitores está na venda avulsa, ou seja, as pessoas que compram o jornal regularmente, mas com uma frequência eventual na rua” explica.

Mas isso não impediu que os jornais impressos se vissem obrigados a diminuir os preços de custo, graças também à “concorrência desleal”, como os jornais digitais foram chamados por diferentes pessoas durante esta produção. “Você tem um concorrente de graça. É a lei da oferta e da demanda”, acrescenta o editor chefe de O Liberal, Lázaro Morais. 

Acessibilidade

Um dos principais atrativos de um produto é a facilidade de consumi-lo. Ele pode ser feito com as melhores matérias-primas e técnicas mais avançadas, mas isso não vai adiantar se o consumidor não puder aproveitar essa qualidade sem dificuldades. Entre os prós e contras que os vinis oferecem, a acessibilidade foi um dos principais lados negativos que levaram as pessoas a os trocarem pelos CDs. Tanto os próprios vinis quanto os seus tocadores eram muito maiores e difíceis de manusear que os oferecidos pelos CDs, o que ajudou muito essas novas mídias musicais a ganharem o coração dos ouvintes. E para os jornais não é diferente.

 Orlando Carneiro, analisando como leitor, acredita que ler nos jornais impressos é mais agradável, principalmente por muitas versões digitais não fornecerem o formato e-book, o que, para ele, torna mais difícil passar as páginas na web e impossibilita a marcação do texto. Ele ainda acrescenta, ao contar como uma confidência, que adora ler deitado, e que por isso a versão e-book seria a mais adequada para ele, já que passar as páginas do jornal em papel na posição horizontal “é muito chato”.

Para Adaucto e Lázaro, editores dos principais jornais de Belém, escolher qual plataforma é mais acessível (entre impressos e digitais) é relativo. Eles acreditam que a facilidade para consumir esses diferentes tipos de produção depende da idade e dos costumes de cada leitor. Lázaro Morais explica que cada geração tem um hábito diferente e que é isso que determina a preferência de cada um. Adaucto Couto confirma: “A acessibilidade depende muito de que público estamos falando, porque depende de cada costume e geração”.

Já o leitor Cezar Cruz dá certeza de que o jornal impresso é mais fácil de manusear, além de não provocar problemas na vista como as telas digitais. Mas para a jornalista Rita Soares os informativos digitais são mais práticos e tendem a ser cada vez mais vistos dessa forma com o passar das gerações.

Redes sociais

“As redes sociais aproximaram os distantes e afastaram os próximos.” Essa citação é feita com uma expressão de total concordância pelo cronista Orlando Carneiro. Ele acredita que as redes sociais atrapalham os jornais impressos principalmente devido à velocidade que elas conseguem atualizar as publicações, o que os jornais de papel não têm como acompanhar.

Para o jornalista Lázaro Morais, o maior problema das redes sociais é que elas, junto à fragilidade do sistema de educação do país, fazem com que os leitores (usuários) percam o hábito da leitura e só consomem tudo de forma superficial, sem se preocupar em checar e se aprofundar no assunto. Afirmação que talvez explique a alta potencialidade de proliferação de notícias (verdadeiras ou falsas) nas redes sociais.

A pesquisadora Ana Prado ainda ressalta como as mídias digitais e os novos costumes sociais afetam o papel de mediador de informações do jornal. “Hoje, o público que antes só recebia informações, agora se apropria de ferramentas que possibilitam que todos possam produzir conteúdos informativos, sejam eles de qualidade ou não”, explica. Com esses limites tão moderados, os fatos passam a ser coadjuvantes para os leitores, enquanto a necessidade de receber constantemente informações que reforçam crenças pessoais vira protagonista.

O jornalista Adaucto Couto também ressalta os riscos das fake news. Ele explica que as redes sociais possibilitam que pessoas com gostos e costumes parecidos possam se encontrar com mais facilidade, mas que as fake news presentes nesse meio ainda são um grande problema. “Essas pessoas não têm a visão jornalística que nós temos. E fake news podem ser espalhadas por dois motivos: ignorância ou má fé”, acrescenta.

Esses meios de comunicação digitais chamados de “processo sem volta” pelo funcionário do Diário do Pará, Hamilton Pinheiro, de acordo com ele trazem muitos pontos positivos. Ao acompanhar as mudanças tecnológicas, ele observou que as pessoas não querem mais apenas consumir a notícia, mas querem também fazer parte dela e até mesmo produzir seu próprio conteúdo. “Muitas matérias publicadas no jornal impresso chegam através de colaborações de leitores pelo WhatsApp, o que mostra como as novas tendências tecnológicas podem se integrar às plataformas mais antigas” conta Hamilton.

A jornalista Rita Soares tem uma visão diferente. Para ela, produzir notícia para os meios digitais e principalmente para as redes sociais ainda é um grande desafio. Ela explica que as pessoas não estão nessas plataformas para se informar, mas para se divertir. E por isso, muitas notícias são descartadas desde o título por não serem de interesse imediato ou simplesmente por não ir a favor das ideologias pessoais do leitor. Rita ainda diz que “na internet é necessário ter um nicho específico de público, o que dificulta ainda mais a produção jornalística, já que a notícia não é produzida a partir de vontades pessoais, mas para transmitir informações de interesse público”.

Mas a jornalista não chega a ser totalmente pessimista quanto às novidades tecnológicas. Ela acredita que a internet enfraquece o “monopólio de notícias”. “Os jornais impressos que antes podiam com facilidade deixar de publicar assuntos que não eram de seu interesse, hoje não têm como esconder, porque tudo está na internet”, explica.

Por Yasmim Bitar.

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