Conheça a história da AGAP, o rei dos 'jogos treinos'

Desde 1975 o Brasil possui um fundo de garantia ao atleta profissional. Através das AGAP esses benefícios tem ajudado cada vez mais ex jogadores em situação delicada ou que deseja estudar e voltar ao mercado de trabalho.

por Luan Amaral seg, 14/01/2019 - 16:09
Julio Gomes/Leia Já Imagens José Fernandes está desde 2008 a frente da AGAP-PE e já ajudou centena de jogadores e ex jogadores através da AGAP Julio Gomes/Leia Já Imagens

Já virou rotina no futebol pernambucano, todo início de preparação a AGAP-PE surge como um dos adversários preferidos dos clubes que fazem os ajustes para o arranque da temporada. Em 2019 por exemplo dois jogos treinos contra o Sport. Mas afinal, o que é a AGAP-PE?

Muitas pessoas acreditam, por conta dessas partidas realizadas, que a AGAP é apenas um clube de futebol, mas parafraseando o lema do clube Catalão, Barcelona, ela é “mais que um clube”. Na verdade, é a Associação de Garantia ao Atleta Profissional, que abreviada cria o nome que nós conhecemos, AGAP.

A HISTÓRIA

A AGAP-PE foi inaugurada no ano de 1998 com intuito de oferecer apoio a ex-atletas com dificuldades financeiras ou que estejam passando por algum problema de saúde e necessite de ajuda, entre outros benefícios. Mas sem conseguir angariar apoio nos primeiros anos, só começou a efetivamente realizar o que era proposto no ano de 2008 quando o atual presidente José Fernandes da Silva assumiu o cargo.

Mas a verdade é que o sistema de apoio ao ex-atleta existente hoje, começou a ser pensado há muitos anos atrás. Em 1974, o então Capitão da seleção brasileira, Wilson Piazza, entrou em conjunto com outros atletas com uma solicitação para que fosse criada um sistema de assistência social ao ex atleta. A lei foi aprovada em 1975 e institui assim o Fundo de assistência ao atleta profissional.

A partir daí as AGAP passaram a ser criadas em 1977 nos seguintes estados: Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e no Distrito Federal. Posteriormente, em 1995 quando Pelé era ministro dos esportes, a Federação das Associações de Atletas Profissionais (FAAP) foi criada para gerir os recursos repassados as AGAP.

“A FAAP é a nossa Federação, fica em Brasília presidido pelo Piazza. Lá eu vi um cara humilde na simplicidade, mas não é por que ele é presidente”, conta o presidente da AGAP-PE, José Fernandes da Silva (Fernando).

DE ONDE VEM OS RECURSOS?

“Temos hoje 17 AGAPs no Brasil, não é todo estado que tem, todos recursos são da FAAP que veio pela Lei Pelé (através da Lei Pelé a FAAP hoje recebe 0,5% do contrato de cada jogador, 0,8 % sob valor de transferência para o exterior de todos atletas profissionais) dos contratos. Não vem recurso para a gente, todos os recursos vão para a FAAP”, salienta Fernando.

O dinheiro recolhido pela FAAP é distribuído para as 17 AGAP de acordo com a demanda. Os benefícios que o associado da AGAP-PE tem são: bolsas de estudos que podem chegar a 70% para ensino superior e 100% para cursos técnicos. Além disso, auxilio saúde para aqueles que não podem arcar financeiramente com algum tratamento e medicação. E para aqueles ex atletas que não conseguiram voltar ao mercado de trabalho, a AGAP, por meio da FAAP ajuda com contribuição previdenciária para que o associado consiga sua aposentadoria.

OS BENEFÍCIOS

Como um caso que nos deparamos ao chegarmos na sala de José Fernandes que conversava com um senhor sobre sua aposentadoria. Não vamos revelar o nome a pedido do presidente, mas com mais de 60 anos, este associado tem passagens por alguns clubes relevantes, e hoje precisa trabalhar como pedreiro para sustentar sua família. Fisicamente ele não suporta mais como nos relatou, mas graças a FAAP em conjunto com a AGAP-PE a aposentadoria está prestes a sair.

O presidente também nos confessou que em alguns casos a ajuda vai além desses benefícios “Tem certa ajuda que a gente dá a assistência e as pessoas não sabem, por exemplo. Ninguém vê, mas a gente dá cesta básica, para alguns ex atletas, fica constrangedor, a gente não toca no assunto”, comentou.

Foi para situações como essas que o sistema foi criado. Desde de 2008 a frente da AGAP, José Fernandes conhece cada detalhe do funcionamento da Associação e explicou para nós como funciona a solicitação do benefício: “A gente monta um processo mediante a solicitação de bolsa de estudo por exemplo, analisa as informações, tem que ter dois anos de contrato profissional e é analisado a situação financeira. Depois manda para lá. Quem manda a bolsa é a FAAP. Cada AGAP é mantida pela FAAP”.

José Fernandes nos revelou que na maioria dos casos das bolsas de estudo o benefício chega a 70%. A depender da situação financeira. Ele até fez uma comparação em relação a algumas bolsas e financiamentos de estudo feito pelo estado. “O Russo veio aqui e eu disse: Russo, aqui é melhor e ele perguntou, mas e o FIES, e eu respondi, mais cedo ou mais tarde tu vai pagar. Aqui tu só vai estudar e passar”, ressaltou.

A AGAP-PE hoje tem 344 associados com uma anuidade de R$ 170. No último semestre de 2018 por exemplo foram solicitados 22 pedidos de bolsas de estudos. Todos cedidos. José Fernandes lembra que hoje “o sistema funciona por si só”.

ATLETA LIVRE

"Tem que treinar, tem que ser profissional" é o que diz José Fernandes para os atletas que procuram a AGAP para manter a forma fisica. O recado, em tom de brincadeira foi direcionado a Carlinhos Bala que treinou para pode jogar com Sport no ultímo sábado (12). Foto: Julio Gomes/Leia Já Imagens

Além dos associados ainda tem cerca de 40 atletas ou ex atleta que treinam regularmente nos períodos da pré-temporada. A estrutura ele confessa que consegue “na amizade”. Hoje treinam no campo do Ferroviário de Afogados.

“A princípio a gente treinava no CETEB, depois a gente fechou parceria com governo do estado e gente passou a treinar no Santos Dumont, em Boa Viagem. Eu corri atrás do espaço, mas como agora em Boa Viagem está em reforma, ai gente tem hoje o Ferroviário de Afogados que fica em uma Associação de Ferroviários”.

Com ajuda de Ramon Ramos, presidente do Sindicato dos Atletas de Pernambuco, José Fernandes consegue o apoio financeiro para manter o jogadores treinando nesses períodos de pré-temporada. O dinheiro é usado para pagar os treinadores, auxiliares, e preparadores físico. “Assim a gente consegue manter o atleta treinando por três meses”.

José lembrou dos momentos difíceis como jogador, falou de como era ruim treinar sozinho ressaltando a importância do trabalho da AGAP-PE. “Eu já passei um tempo desempregado no futebol e eu sei o que é isso, você treinar só. Em renovação de contrato com Náutico fiquei um pouco afastado, treinando separado. Agora para treinar tem que ser profissional, tem que treinar”. Disse José que aproveitou para contar que aguardava Carlinhos Bala no treino.

Segundo o presidente o ex-jogador pediu para jogar contra o Sport no jogo treino que aconteceu no sábado (12) na Ilha do Retiro. Além de Bala, o volante Bia e o lateral Ademar, batedor de uma das cobranças na “Batalha dos Aflitos” também participaram da atividade.

Mas a AGAP também pode ajudar o atleta a voltar ao mercado da bola. Como foi o caso do meio de campo Jaílson que antes de se destacar pelo Santa Cruz e acertar contrato com Cuiabá - MT para a disputa da série B de 2019, passou um período treinando na AGAP e depois de realizar bons jogos-treinos contra o Náutico, despertou interesse do Santa Rita de Alagoas. Depois passou pelo ASA, Central e Decisão até chegar no Santa Cruz em 2018.

UM SONHO

Por fim, José Fernandes revelou aonde ele imagina que AGAP-PE pode chegar e revelou um sonho: “Meu sonho era manter uma estrutura de academia, com fisioterapia. Isso era meu sonho, mas eu sei que é custo. Eu sei a necessidade de você está machucado e desempregado. Eu tenho amigos que me ajudam nesse sentido. Se precisar de fisioterapia, um telefonema eu resolvo, mas eu queria próprio” finalizou.

 

COMENTÁRIOS dos leitores