Quando o filho vira professor do pai

Na sala de aula os papéis se invertem. Docente deixa de ser filho e pai se comporta como aluno

por Marcele Lima dom, 11/08/2019 - 08:00
Rafael Bandeira/LeiaJáImagens Filho professor dá aulas ao pai que queria falar alemão Rafael Bandeira/LeiaJáImagens

O segundo domingo de agosto é dedicado aos pais. Na relação com os filhos, eles podem vivenciar inúmeras experiências, inclusive no campo educacional. Paulo Hinrichsen queria aprender alemão, idioma do seu pai. Por isso, resolveu matricular-se em um curso situado na Rua da Hora, no Espinheiro, Zona Norte do Recife. Para a surpresa de Paulo, o professor era alguém que ele conhecia muito bem: o filho, Bruno Hinrichsen. 

“Eu tenho memórias de meu pai estudando desde que eu tinha seis, sete anos. Meu avô era alemão e eu convivi muito com ele no final da vida dele e fiquei curioso para entender o que ele estava falando. Fui estudar filosofia e morar na Alemanha. Depois que eu voltei, comecei a dar aulas a algumas pessoas daqui, não era uma coisa muito grande”, conta Bruno. A partir daí, o jovem passou a receber indiretas do pai para que ele o ensinasse a falar a língua. Começa assim a história de aprendizado, que envolve gerações.

Depois do curso, as aulas entre pai e filho passaram a ser realizadas na varanda da residência da família. O pai, de 64 anos, que guiou o filho, agora com 30 anos, desde seus primeiros momentos de vida, entende que na hora da aula precisam assumir papéis hierarquicamente opostos. “A gente tem que fazer um truque: na hora em que é aula, é aula, então ele é o professor e eu sou o aluno. Deixo de ser pai e passo a ser aluno e com isso a coisa flui. Nós já estudamos há dois anos e tem sido gratificante pelo profissionalismo que ele também empresta à atividade dele”, diz. 

O pai expressa orgulho ao ver o filho como um profissional de língua estrangeira. “Na hora em que você é profissional, as relações pessoais deixam de ser tão importantes. Ali ele é professor, ele se veste com as características que um bom professor deve ter e isso ajuda. Eu, como pai, também percebo essa condição dele e ajo como um mero aluno em sala de aula”, complementa Paulo Hinrichsen.

E como qualquer professor, Bruno "puxa a orelha" de Paulo na hora da dedicação aos conteúdos lecionados. “Na aula, ele se esforça, o que ele não tem é um hábito de estudo para poder consolidar”, revela o filho. 

O aprendizado é compartilhado, visto que nesta relação, como em muitas que envolvem educação, é difícil que as partes saiam do mesmo jeito depois do conteúdo. “É engraçado porque você quebra a dinâmica de pai e filho. Quando você está ali tem um professor e um estudante. Os dois estão interagindo e tem um crescimento mútuo”, ressalta o docente. 

Para quem tem vontade de seguir os passos de Bruno Hinrichsen, ele orienta que é necessário ter afetividade e aptidão para ensinar, além de ser paciente, utilizar o ambiente e o contexto de inserção do estudante para facilitar a experiência e obter os melhores resultados. “É conseguir tirar o ensino e o aprendizado de todas as situações possíveis. Então, se você tem um pai que quer aprender alguma coisa, chega junto dele e pergunta como ele entende a coisa, para poder depois fazer o processo de transformação. Eu me sinto bem 'pra burro'”, conclui.

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