Fita Cassete: quando a música tinha dois lados

Suporte que possibilitou levar a música para todos os lugares começa a deixar a prateleira dos colecionadores para retomar espaço no mercado fonográfico

por Paula Brasileiro qui, 25/01/2018 - 17:20
Paulo Uchôa/LeiaJáImagens As fita cassete estão expandido as coleções e voltando aos mercados Paulo Uchôa/LeiaJáImagens

Quando chegou ao mercado, esta tecnologia tornou possível levar a música para todos os lugares. Isso sem falar na possibilidade de criar sua própria playlist, com aquela seleção escolhida a dedo, literalmente. Os dedos que apertavam play, rec e pause. Estamos falando das fitas cassete, que no século passado, em 1963, revolucionaram a maneira de se relacionar com a música.

Até aquele momento, os discos de vinil dominavam o mercado fonográfico. Eles eram mais caros e difíceis de transportar e, por isso, a chegada do cassete causou uma verdadeira revolução musical. Possibilitando a gravação de músicas em dois lados, o A e o B, cada um, em média, com 30 minutos de duração, as fitas se transformaram em objetos cativos, com seleções musicais bem pessoais e, também, por serem mais baratas, virou febre entre bandas de garagem que, antes, não tinham como gravar e distribuir suas demos. O auge dos K7 se deu nos anos 1980 mas, não durou muito.

No início da década seguinte, 1990, a criação do Compact Disc trouxe nova revolução com seu imenso espaço que armazenava até 700mb de conteúdo em formato digital. O resto da história, todo mundo já conhece, as tecnologias foram levando a música para outros formatos, como o MP3 e, atualmente, os serviços de streaming como Spotify e Deezer já eliminaram quase que por completo, até o sucessor das fitas, o CD.

Lado A

Porém, a trajetória meteórica dos cassetes deixou saudade em alguns. Apaixonados por este suporte continuam guardando suas fitas, algumas consideradas relíquias, e gravações bastante pessoais como de encontros familiares, mesmo quando não se pode mais ouví-las.

É o caso de Marcelo Tompson, engenheiro de pesca, de 53 anos. Nascido e criado em uma casa onde a música era mais uma moradora, ele herdou dos pais o amor pelo jazz, música clássica e popular. Sua coleção de cassetes guarda parte da história da residência localizada no bairro de Casa Forte, no Recife. Seu pai sempre investiu em equipamentos de som de qualidade e acabou transformando uma garagem em uma sala de música. Era lá que a família recebia os amigos, muitos deles músicos profissionais, para noitadas de cantoria e audição de vinis e fitas com suas seleções especiais.

Genoveva Tompson, mãe de Marcelo, também cantava, e muitas das fitas guardadas no acervo do filho trazem sua voz. Os dois lamentam não terem mais o equipamento específico para colocarem os K7's para tocar: "Eu fico furiosa que não posso mais ouvir", diz. Marcelo planeja adquirir um suporte em breve para poder digitalizar todo o material: "A gente tem um acervo extraordinário. Pra gente é uma preciosidade.Tem coisas que nem tem mais em vinil nem no suporte digital", comenta. Revirando as fitas guardadas, ele percebe que uma das últimas a serem gravadas data do ano de 2001 e se surpreende: "Até o início deste século a gente ainda usava o cassete".   

Lado B

Elcy Oliveira, de 58 anos, o DJ Elcy, começou sua vida profissional nas picapes por volta de 1974. Ele que chegou a discotecar usando os cassetes, possui uma coleção imensa com raridades e muitas fitas que trazem lembranças familiares, inclusive de alguns já falecidos. "Sempre tive mania de registrar tudo", explica. Apesar de não se julgar um saudoso, ele lembra com carinho da história de cada fita e o bom estado delas demonstra o cuidado de um apaixonado pela música e seus suportes.

O acervo vai de relíquias do rock à várias demos de bandas pernambucanas. Elcy viu de perto o surgimento e florescimento do movimento Manguebeat e guarda registros desta época, alguns raros, como a voz de Chico Science numa vinheta gravada para uma rádio local na década de 1980. Diferentemente de Marcelo, o colecionador do Lado A, Elcy possui um gravador no qual pode ouvir seus cassetes. Tudo funcionando perfeitamente e, para qualquer eventualidade, ele também tem guardada uma fita que funciona especificamente para limpeza do equipamento.

"Eu cheguei a ter muito mais do que essas. Com o passar dos anos as coisas vão se perdendo. Mas cheguei a ter umas duas mil, mais ou menos", revela. Ele diz que o grande diferencial do K7 é a qualidade do som que, embora um pouco inferior que a do vinil, não se perde: "O vinil se gasta à medida que você vai tocando". Hoje em dia, o DJ trabalha com CD's e com a música em formato digital, tudo armazenado em HD's. A década de 1970 ficou guardada nas fitas e na lembrança: "Foi uma época legal, mas não tenho saudade da mídia. Tenho saudade só da época mesmo".

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Museu de novidades

Engana-se quem pensa que as fitas cassete são apenas item de colecionador. Existe um movimento no mercado fonográfico de volta a este suporte, e muitas bandas e artistas estão lançando trabalhos em K7, em pleno século 21. Pode-se citar diversos nomes, como dos grupos Herzegovina, Moptop, Patrulha do Espaço e o da Boogarins que lançou todos seus quatro discos neste formato, também. Na gringa não é diferente e bandas consagradas como a Metallica e artistas mais modernos como Nelly Furtado já fizeram lançamentos deste tipo. Não à toa, o aumento nas vendas de K7's, nos Estados Unidos, foi de 35% em 2017.

Aqui no Brasil, além das bandas, alguns selos e grandes gravadoras já estão igualmente apostando na volta do formato. Em São Paulo, o Contra Boots é especializado em gravações de shows de bandas independentes para lançá-los em fitas. E no Rio de Janeiro, a Polysom está se preparando para duplicar cassetes, após a compra de um maquinário que possibilita a duplicação de 100 cópias por hora. A produção está prevista para começar ainda em 2018.

 

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