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Cristiano Ramos

Cristiano Ramos

Redor da Prosa

Perfil: Jornalista, professor e crítico literário.

Os Blogs Parceiros e Colunistas do Portal LeiaJá.com são formados por autores convidados pelo domínio notável das mais diversas áreas de conhecimento. Todos as publicações são de inteira responsabilidade de seus autores, da mesma forma que os comentários feitos pelos internautas.

Escritores e leitores: entre o potencial e a vocação

Cristiano Ramos, | seg, 09/07/2012 - 17:33
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Há duas semanas, alguns leitores da coluna Redor da Prosa acusaram de elitismo (ou algo parecido) a afirmação de que ser leitor também é vocação. O argumento mais utilizado por eles foi que vocação é termo que discrimina, que se mostra contrário à ideia de que todos são capazes de realizar algo. Em tempos de proliferação das oficinas literárias e de universalização de tudo, aquele texto não “caiu bem”… Melhor assim!

Querido Raimundo Carrero (escritor e realizador de oficinas literárias) sempre repete: se tudo pode ser aprendido, por que não seria possível ensinar a escrever? Por um motivo bem simples: não é bem assim, nem tudo que reside na arte é conteúdo passível de disponibilização e aprendizado. Aliás, nada no mundo é redutível à técnica.

É comum que os defensores de que todos são capazes de tudo recorram ao termo grego techné, que, no decurso de sua história, realmente aproximou o artesão e o artista. Seja trabalhando na madeira ou em versos, estamos agindo sobre algo para revelar/desvelar outra coisa. A techné não é só práxis, é também um saber, daí que seja raiz comum aos mundos da tecnologia e da arte.

Acontece que desde a Antiguidade os filósofos reconhecem a necessidade de pensar o ser como resultado sempre inacabado, de algo além. Não é simplesmente questão de ser capaz, nem de potencial enquanto conjunto de habilidades que estão adormecidas, à espera de estímulo e orientação. Mas sim de potencial como força, como potência que é a própria energia que propicia a vida e suas realizações. Não é uma energia hibernando, em estado natural, mas força dinâmica (dynamis) que ao mesmo tempo ratifica e transforma.

Na modernidade, de Kant a Novalis, de Nietzsche a Heidegger e tantos outros, houve sempre uma recusa de encarar o potencial nesse sentido homogeneizador, simples, banal, de livro de autoajuda barata. A potência é, pelo contrário, algo diferenciador, singularizante, vontade que ao mesmo tempo orienta e liberta.

O que chamamos de vocação na coluna anterior é algo além da capacidade. Não porque sobrenatural, mística, mas por ser irredutível às técnicas. Ela advém das infinitas equações que são resultantes das também infindáveis energias, potências e technai. Por isso sua definição nos escapa, por isso a sensação de vocare, de “chamado”.

Muitos se sentem incomodados com a palavra vocação porque ela indica existência de algo para além das capacidades comuns a todas as pessoas. Geralmente, por trás dessa insatisfação, está a questão dos valores. O receio é que o discurso sobre sujeitos vocacionados termine por perpetuar injustiças sociais, desigualdade de oportunidades. O que essas mesmas pessoas não percebem é que o contrário é caminho tão ou mais perigoso: se não existe vocação, somente capacidades comuns e oportunidades, aquele jovem que não consegue transformar as chances que recebeu em sucesso é um preguiçoso, um fracassado, um perdedor. O que lhe falta não é vocação, mas sim garra, disposição para vencer.

Esse incômodo, no entanto, geralmente tem seus campos preferidos. É mais raro acreditarmos que todo menino apaixonado pela bola e bem instalado na escolinha de futebol se torne um craque. Ou que a criança que adora água e vive na piscina do clube se torne uma nadadora quando adulta. Não costumamos defender que toda criança que gosta de música e recebe educação na área se transforma num virtuose, ou que o pequeno a desenhar para os pais cresça e seja reconhecido como novo Goya.

Por que, então, para ser escritor bastam ambição e técnicas? Será a literatura algo menor, diferente de todas as demais atividades humanas?

Para muitos (pois estamos falando de opiniões), a arte não é regra, ela é exceção. Porque é ambígua, tensa, ela aproxima e afasta, desvela e oculta, nasce a partir do que está e do que não está imediatamente disponível. Arte é sempre um dobrar-se sobre si mesmo, sua existência não se resume, não se permite ter uma função pontual e imutável. Ela é fazer, saber e, sobretudo, reflexão. Enquanto a techné aproxima artesão e artista, a poiesis, por exemplo, afasta, pois é um fazer que é saber e pensar, saber e refletir, saber e transcender, saber e agir.

Quem frequentou oficina literária adquiriu instrumentos, “aprendeu” recursos, alguns caminhos e atalhos da escrita. Mas será suficiente para fazer literatura, arte? Ou precisará ter potencial e ser vocacionado? Não parece mais coerente a posição de José Castello, para quem as oficinas não ensinam a escrever, “mas servem para desnudar e desembrutecer”, “para aproximar o aluno da verdade – a verdade pequena e precária de cada um”? As oficinas oferecem apenas uma face das muitas nesta lua sombria e incandescente que é a literatura.

A coluna anterior somente levou essa reflexão para outra órbita, a do leitor. Nem todos têm vocação para serem leitores de livros, embora seja obrigação dos educadores estimular a experiência, assim como preparar os estudantes para um mundo em que precisam ler sempre, nas mais variadas linguagens – para um mundo que afinal é linguagem! Fazer da leitura de livros uma atividade para toda a vida, uma parte do ser, porém, é outra coisa. Que não se deixa aprisionar por gestões públicas, discursos politicamente corretos ou colunas literárias.

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Quartas intenções: Cosac, Rascunho, Benedito e um clássico

Cristiano Ramos, | qua, 27/06/2012 - 14:48
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Nas quartas-feiras, a coluna Redor da Prosa traz mais intenções do que impressões. Espaço para dicas de leituras e eventos. Nesta semana,pedidas são:

As edições de bolso da Cosac Naify. Conhecida por seu catálogo de livros com design caprichado, verdadeiros fetiches para os amantes dos livros, a editora agora investe no formato pocket. Ideia é publicar títulos que aliem beleza, praticidade e preços mais acessíveis. Os primeiros da coleção Portátil são O africano, de J. M. G. le Clézio,

Como funciona a ficção, de James Wood, e Lero lero, de Cacaso. Projeto que vale conferir.

Edição comemorativa dos Contos Gauchescos, de Simões Lopes Neto, que tem Luís Augusto Fischer como responsável pela introdução e notas explicativas. Esse clássico da literatura brasileira, ainda pouco lido fora dos pampas, está completando 100 anos. A publicação é da editora L&PM, e custa R$ 45,00.

“A melhor maneira de aproximar os jovens da literatura não é, portanto, submetê-los a compêndios, a apostilas e a cânones. Mas levá-los, desde os primeiros momentos, a se defrontar com os próprios livros. Não existe outro caminho para a experiência da leitura senão a própria leitura. A literatura é a própria salvação da literatura”. Esta é a opinião do escritor e crítico José Castello, em texto da edição de junho do jornal Rascunho – uma das mais importantes publicações literárias do Brasil. Quem não conhece o projeto, pode visitar o site www.rascunho.com.br.

O pensamento e a obra de Benedito Nunes são os temas de Hermenêutica e crítica, estudo de Jucimara Tarricone, doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Ainda não li, mas é de meu completo interesse tudo que diz respeito ao filósofo e crítico paraense, que faleceu ano passado, em 27 de fevereiro – mesmo dia em que perdemos também o escritor Moacir Scliar.

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Leitor como vocação & escritores que não leem

Cristiano Ramos, | seg, 25/06/2012 - 17:40
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Ser leitor é também vocação. Não no sentido de decodificador, de alguém capaz de decifrar e interpretar um texto, de alfabetizado. Mas aquela outra esfera (nem superior, nem inferior, apenas diferente) que encontra na leitura uma teia especialíssima de prazer, desdobramentos e transcendência. Não se trata de um pensamento conservador, pelo contrário, ele aproxima o ato de ler das outras capacidades humanas.

Não costumamos exigir que uma criança iniciada no mundo da música faça do instrumento ou do canto uma obrigação para o resto da vida. Não esperamos que o aluno que desenha casas e parentes venha a ser obrigatoriamente um artista plástico. Tampouco a matemática precisa se tornar profissão, assim como garotos matriculados em escolinhas de natação ou futebol não necessariamente serão atletas quando adultos. Por que, então, a leitura precisa ser um pacto sem volta, em que aquele estudante iniciado só não será um leitor até envelhecer e morrer se houve uma “falha” em sua formação?

Papel do educador é trabalhar a importância da leitura, desenvolver as habilidades cognitivas e técnicas envolvidas, bem como apontar caminhos. Ou seja, propiciar base e estimular jornadas – duas missões fundamentais e relacionadas, embora distintas. O sistema falha ao não estimular que a criança mantenha a leitura como hábito, ao não disponibilizar os portais. O prosseguimento da viagem, no entanto, é incerto e não normativo. É estupidez dizer que são fracassados o engenheiro que não lê (livros) e o professor que o educou.  

Explicando de outra forma, é necessário preparar os alunos para percepção e compreensão dos significados de um mundo que, como sugeriu Barthes, não pode ser apreendido senão através da linguagem. Ou melhor, de um mundo que é linguagem. Sempre existirão, porém, aqueles para quem essa navegação está além do pragmatismo, das necessidades, da capacitação.

Nos meios especializados, tema surge como diferenciação entre os processos de alfabetização e de letramento, onde este implica apropriação técnica, construção de bagagem cultural e aproveitamentos dos saberes oferecidos pela leitura. Na verdade, a “esfera” do letramento é sítio onde orbitam diversas outras esferas. Porque sempre que falamos de alguns tipos de leitura estamos simplificando a discussão, é um recurso dissertativo. Existem incontáveis modos de ler, e infinitas veredas e maneiras de percorrê-los.

Perpetua-se, contudo, uma falsa ética da leitura, que transformou a diferença entre leitores e não leitores em resultado de desigualdades econômicas e educacionais, em questão de justiça social, apenas. É isso, também. Voltando a Roland Barthes, ele reconheceu as dificuldades de tratar do assunto. Confessou que, ao contrário da escrita, área em que conseguiu pouco a pouco esboçar uma doutrina, a leitura o deixava em desamparo teórico. E refletiu:

“(...) não sei se a leitura não é, constitutivamente, um campo plural de práticas dispersas, de efeitos irredutíveis, e se, conseqüentemente, a leitura da leitura, a Metaleitura, não é nada mais do que um estilhaçar-se de idéias, de temores, de desejos, de gozos, de opressões, de que convenha falar à medida que surjam (...)”(O rumor da língua, 2004, pág. 30).

Ao tentar erguer cômodo sobre esse terreno movediço, Barthes tocou em tópico essencial: o desejo. A leitura não é um ato natural, selvagem, compartilhado pela quase totalidade da espécie. Ela implica níveis díspares e incomensuráveis de querer, vontade de. São tantos os matizes envolvidos, que andam por aí até escritores que não costumam ler, ou que leem pouquíssimo.

Barthes, sustentou que o prazer da leitura conduz ao da escritura. E que o leitor não quer escrever como o autor que ele leu, mas sim ter aquele mesmo prazer que o escritor deve ter sentido. Ele citou Roger Laporte, para quem uma pura leitura que não suscite outra escritura é algo incompreensível. São opiniões bem discutíveis, pois generalizantes, mas que oferecem outras lentes de observação, entre as muitas que podem ser utilizadas para sondar o universo de leitores.

Sempre que recomendamos ao jovem escritor que leia, leia e leia, estamos pregando caminho que acreditamos ser mais acertado. Não há, porém, regra que estabeleça direta relação entre quantidades/qualidades de leitura e definição da capacidade narrativa ou poética. Acontece que é tão opressivo o senso comum, de que todo sujeito que não lê é um fracassado, que os autores que leram somente algumas obras, e poucas vezes, sentem-se constrangidos.

Óbvio que mesmo aquele autor que não pega em livros é também um leitor, desde que aceitemos que ele lê filmes, séries, peças, músicas, quadros, propagandas, roupas, falas, comidas etc. Essa leitura do mundo é requisito indispensável para que consiga articular ferramentas e desenvolver os conteúdos de sua escritura. Leitura genérica que é condição para tudo mais que recebemos, engendramos e movemos.

Essa falsa ética, que confere ao objeto livro uma chave obrigatória para o sucesso ou o engrandecimento do espírito humano, é reacionária, pois pretende homogeneizar, e acaba por marginalizar quem não se adéqua. Além disso, como se nega a ver algumas modalidades de leitura como vocacionadas, não permite que um professor possa dedicar atenção diferenciada quando acredita ter encontrar alguém que fará dos livros parte integrante do seu próprio ser. Esse tratamento díspar é tido frequentemente como preconceituoso e nocivo, pois todos os estudantes devem ser tratados “igualmente”. É o discurso da universalização que a tudo corrói.

Que os educadores – não só professores, mas todos os mediadores de informação e provocadores de experiências do conhecimento – possam lidar com os alunos de outra maneira, fora dessa linha de montagem. Até porque, nesta seara, recall nenhum consegue reparar os estragos. O que os gestores enxergam como eficiência, enfim, é o sucesso desse processo de pasteurização da cidadania, das artes, do prazer e da transcendência.

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Quartas intenções: dois lançamentos, um programa e Carpeaux

Cristiano Ramos, | qua, 20/06/2012 - 12:17
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Nas quartas-feiras, a coluna Redor da Prosa traz mais intenções do que impressões. Espaço para dicas de leituras e eventos. Nesta semana, negócio é

Conferir novo livro de Jorge José, que tem feito trabalho inestimável, publicando obras sobre a história da mídia local. Depois de escrever sobre a televisão (em dois volumes) e o rádio, o pesquisador lançou ontem Jornais e jornalistas – imprensa pernambucana. Além de testemunha rara de vários momentos da comunicação no Estado, Jorge José B. de Santana realizou centenas de entrevistas em vídeo, ou seja, há também um acervo riquíssimo criado a partir desses projetos editoriais.

Hoje é a vez de Marcelo Mário de Melo, que lançará Os colares e as contas – poemas políticos. Evento acontece às 19h00, no Museu do Estado de Pernambuco, que fica na Av. Rui Barbosa, 960, bairro das Graças. Para o prefaciador, também poeta Everardo Norões, “a poesia de Marcelo transita entre o iconoclasta e o satírico e faz o difícil cruzamento entre ética e política”.

Programa NotaPE grava entrevista também com Marcelo Mário de Melo logo mais, no estúdio da UniNassau. Além dele, estará nos estúdios o professor e poeta Ângelo Monteiro. Mas, amanhã, programa que será veiculado pelo portal LeiaJá é com o professor e pesquisador Saulo Neiva, radicado na França, estudioso das epopeias e da literatura contemporânea.

Não canso se sugerir Carpeaux. E, como na vez derradeira falei sobre o relançamento da História da Literatura Ocidental, termino a coluna de hoje recomendando... Ou melhor, ordenando, quase obrigando a tapas, a leitura dos Ensaios Reunidos, que saíram em dois volumes pela Topbooks. Cada texto de Otto Maria Carpeaux é um convite incomparável, que vale cada Real investido.

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Da arte de conviver com escritores II – os super humildes

Cristiano Ramos, | seg, 18/06/2012 - 15:18
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Sempre que autor me presenteia com livro que foi “escrito e publicado sem pretensão” vontade é de perguntar: “Não lhe parece muito pretensioso querer que leiam obra que foi realizada sem objetivos”? Mas abro sorriso e agradeço, pois carrego aquela suspeita de que não existe escritor mais ambicioso do que o super humilde.

Por trás de quase todo São-Francisco-das-Letras existe cidadão que gasta boa parte da noite sonhando em vencer Jabuti e ser entrevistado na televisão. O desdém com a reputação é, na verdade, sintoma terminal de pretensões olímpicas. Sujeito que afirma não desejar protagonismo é aquele que se morde quando é chamado para evento como mediador, ao invés de atração principal. É também o mesmo que semanalmente digita o próprio nome no Google para conferir quantas ocorrências aparecem.

Super humilde é gente trabalhadora e teimosa, que gasta as poucas horas vagas escrevendo. Que envia seus trabalhos para os mais variados concursos, tenta ser aceito por editoras, e, se necessário, não hesita em torrar suas economias bancando publicação de suas obras “sem pretensão”.

O cabotino e o despretensioso são sujeitos exagerados e aparentados, eles tomam caminhos opostos de olho nas mesmas botijas. E, convenhamos, são divertidos, além de necessários. Nenhuma cena literária pode se projetar seriamente se não tiver pelo menos uma penca de metidos e dois cachos de super humildes.

O cabotino às vezes é tão excessivo que termina sofrendo acidente vascular. Ele teima e teima, até que o não reconhecimento lhe dá nos nervos e estraga algum órgão vital. Já o super humilde é comedido até nisso, ele geralmente adoece de coisas pequenas, arranja caspa ou brotoejas, unhas encravadas ou gastrite. Um explode, o outro vai definhando.

Diferente do arrogante, que reage violentamente à indiferença, o despretensioso não grita, não protesta, sequer reclama pelas beiradas. Ele guarda a raiva. Seu extravasamento é pela via da paranormalidade. Se topar com um super humilde no banco, e os caixas eletrônicos desligarem, não duvide, foi ele – a não ser que você seja do convívio com meu azarado amigo jornalista Diogo Monteiro, que faz cair qualquer sistema eletrônico ou toldo de festa em dia de chuva.

Lembro de um humilde que adorava propor pautas ao programa Opinião Pernambuco, da TV Universitária. Ele ficava de olho em datas e outros ganchos, aí sugeria tema e lista de convidados. Três, ele recomendava com empolgados elogios. O derradeiro, no entanto, era ele mesmo, que se justificava mais ou menos assim:

– Poderia ser eu, porque estudei bastante esse assunto. Seria, contudo, apenas para compor, porque os demais é que são inestimáveis!

E terminava que, como ele tinha realmente boas propostas, a produção acatava as ideias. Preferindo, contudo, fechar a mesa com entrevistado que pudesse mais do que somente compor.

Note que outro traço do despretensioso é a pretensão de ser conhecedor de muitos temas. Tanto assim que nosso super humilde, esse colaborador do Opinião Pernambuco, foi tentando participar de conversas cada vez mais distantes da literatura. Numa dessas, programa sobre relacionamentos na internet, ele conseguiu finalmente ser chamado. Mas a vontade de falar também sobre arte, filosofia, política, economia e astronomia foi tão grande que ele travou, ficou com pescoço engessado nos 40 graus, os dentes batendo alto.

Pouco antes de se encantar, o saudoso Rubem Rocha Filho pediu para ver originais de meu livro de contos. E, naturalmente, comecei a negociação dizendo que eram narrativas sem pretensão alguma. Ao que ele respondeu: “Meu querido, não faça isso, essas ressalvas são das coisas mais cretinas que um escritor pode cometer. Pior que isso, só aquele nosso conhecido, que está pensando em criar instituto com o próprio nome, ‘em benefício de todos os escritores pernambucanos’”.

Nunca cheguei a perguntar quem era esse conhecido meu e de Rubem. Com o despretensioso do Opinião, entretanto, eu cruzei recentemente, numa livraria. Ele se fazendo passar por seu leitor, perguntando ao funcionário da loja se tinha um romance que lhe fora muito indicado por José Castello e Jomard Muniz de Brito! Essa fantasiosa conjunção de recomendações me pareceu tão sensacional que, confesso, quase comprei o danado.

No mundo, existe exatamente o mesmo número de cabotinos e despretensiosos. Desse rigoroso equilíbrio, depende a sobrevivência do planeta. Toda vez que algum autor metido morre, um super humilde entrega seu livro de estreia aqui na guarita do predio. Cada dia em que vejo notícias na mídia, que deixam entender que a literatura ainda vive, dou graças aos cabotinos e despretensiosos, porque são açúcar e sal dessa terra das letras. Sem eles, os demais alimentos findariam sem graça, seriam como biscoitos que só têm recheio.

Mas vamos terminar esta coluna, que já está bem longa, e o caro leitor não tem tempo ou paciência para ler mais que três dezenas de linhas desses meus textos modestos, publicados assim, assim, sem maiores ambições. Sem falar que a dermatite está incomodando, minha orelha está queimando mais do que fogueira de São João.

Até mais (caso deseje voltar a essa humilde casa). Abraço grande!

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Quartas intenções: Mostra SESC, Ribamar e Confraria do Vento

Cristiano Ramos, | qua, 13/06/2012 - 13:52
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Nas quartas-feiras, a coluna Redor da Prosa traz mais intenções do que impressões. Espaço para dicas de leituras e eventos. Nesta semana, as pedidas são:

Conferir a III Mostra SESC de Literatura Contemporânea, que reúne nomes de vários lugares do país, como Ignácio de Loyola Brandão, José Castello, Marcelo Rubens Paiva, Adriana Falcão, Bráulio Tavares e Marcelino Freire. Os encontros acontecem de amanhã até sábado, no SESC Santa Rita, a partir das 19h30. No domingo, encerramento é na Livraria Cultura, a partir das 17h00. Entradas são gratuitas, então negócio é chegar cedo para garantir lugar.

José Castello está ministrando oficina durante esse evento realizado pelo SESC, oportunidade em que fala sobre os bastidores do seu recente Ribamar – o que me leva a outra intenção: ler esse livro que, apesar de pisar em terreno bem conhecido, o do diálogo entre diversos gêneros literários, tem assinatura de um dos mais talentosos escritores e críticos brasileiros contemporâneos.

Falando em livros, a Confraria do Vento lançou títulos de dois nomes bem conhecidos no meio pernambucano: Memória Líquida, décimo livro de Majela Colares, e Da arte de untar besouros, primeira publicação de poesias da professora e pesquisadora Renata Pimentel – dois grãos raros, entre tanto joio que o mercado editorial tem despejado nas prateleiras.

Gravações do NotaPE esta semana são com professor e pesquisador Saulo Neiva, que tem estudado e ratificado a presença da epopeia na literatura contemporânea, e com o professor, editor e poeta Fábio Andrade. Mas, amanhã, programa que o portal LeiaJá veicula é com Karla Melo, da Confraria do Vento. Ela fala sobre lançamentos e mercado editorial.

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Da arte de conviver com escritores I – os cabotinos

Cristiano Ramos, | seg, 11/06/2012 - 17:41
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Amigo Sidney Rocha repete o conselho: Dê menos atenção aos geniosos, escreva sobre os geniais! Não ouso discordar. Mas que os geniosos têm um charme especial, isso têm. É um charme que cansa, vale só por um dia ou dois, nem por isso deixa de merecer registro. De cabotinos, por exemplo, todos guardam alguma história.

Publicaram-me em livro uma crônica sobre rapaz que encontrei no banco, junto ao caixa, que jurava de pés juntinhos ter escrito uma obra-prima. Mas nada demais, nem chegou perto do Cabotino da Jaqueira. Este, o do bairro da Jaqueira e adjacências, parecia adivinhar a hora de minhas caminhadas (prefiro crer que era somente isso, adivinhação). Ele emparelhava comigo e, sempre, sem maiores ou menores constrangimentos, soltava o aviso: “Você ainda vai ouvir falar muito de mim”!  

Primeira vez, tive medo. Aquele vaticínio podia servir para qualquer coisa, principalmente as que puxam cadeia. Aquele senhor, no entanto, que fazia jogging com sapatos mocassins e meias sociais, fazia parte da família dos cabotinos. Na espécie escritores, esse ramo é vasto, variado e vigilante, não deixa escapar oportunidade de divulgar suas excelsas qualidades narrativas ou poéticas.

O Cabotino da Jaqueira era chato, muito, quase insuperável. Mas tinha seus momentos. Um deles era quando repetia que, quando vencer o Jabuti, não irá receber, mandará um índio pankararu, pois assim serão duas tapas no sistema:

– Como romancista dos marginalizados, lembrarei que no país de Lula nem tudo é peixe gordo, que tem gente ainda desprovida de seus direitos históricos. Como escritor independente, realizarei meu protesto contra o mercado editorial e seus prêmios de encomenda.

Esse Marlon Brando das letras faz tempo que não aparece em minhas caminhadas. De repente, desistiu de me cooptar para seu fã clube, e agora faço parte do sistema que não lhe dá o justo reconhecimento.

Nas redes sociais, existem dezenas de cabotinos. Alguns são bem conhecidos. De três em três dias (ou duas em duas horas), publicam imagens das capas de seus livros, legendadas com inesgotável acervo de elogios aos seus próprios e indiscutíveis dotes literários.

Um deles, que publicou romance histórico, é do tipo Moisés, não cansa de propalar que escreveu um “divisor de águas, que devolverá Pernambuco ao mapa dos grandes autores”. Estão duvidando? Então fiquem de olho nas minhas redes sociais. Ele está por lá, todo ancho, esperando pipocos dos fogos de artifício que celebrarão sua chegada ao Panteão!

Eles seriam até engraçados, cativantes, se fossem apenas pitorescos. Aporrinhação, contudo, é que muitos cobram espaço seriamente, são grosseiros, acusam você de ser uma das carrancas do sistema, sempre tentando afugentar os grandes escritores que surgem. Um deles é cordelista, e suspeito que também sofre de esquizofrenia, pois escuta vozes, rebate críticas que você não fez, defende-se de ofensas que você não disse (ainda que ele merecesse). E deve ter parte com o demo, porque quando você tenta lembrar quem ele é, quando foi desrespeitado, logo vem a resposta: “Nós somos muitos”! Ou esse doido se refere aos cordelistas, que supostamente seriam perseguidos pelos críticos literários e pela mídia, ou Àquele-que-fede-a-enxofre-e-chega-na-desgraça! Seja lá como for, resolvi excluir de minha rede social.

O mais recente cabotino foi sutil, enviou mensagem com a pergunta: “Quando você vai escrever sobre mim na sua coluna”? Perguntou de forma tão delicada, próxima, íntima mesmo (apesar de eu nunca tê-lo visto nesta e nas anteriores vidas), e às vésperas do Dia dos Namorados, que não resisti...

Eis sua coluna, meu querido! E não reclame, porque toda forma de amor vale a pena.

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Quartas Intenções: Quatro momentos do FIP

Cristiano Ramos, | qua, 06/06/2012 - 12:33
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A coluna Redor da Prosa está de volta. E com as Quartas Intenções dedicadas ao I Festival Internacional de Poesia do Recife, FIP, que acontece em vários locais da cidade, de 7 a 10 de junho. Destacamos quatro momentos da vasta programação do evento:

A roda de poesia da sexta-feira reunirá Marcus Accioly, Luís Serguilha, Carlos Nejar, Ricardo Domeneck, Samarone Lima e Samuca Santos. Pá de gente boa, e com dicções poéticas bem diferentes. Começa às 20h30, na Torre Malakoff.

Garantia de ótima conversa no dia seguinte, no mesmo local, às 19h, onde professor e pesquisador Saulo Neiva, radicado na França, conversa com Carlos Nejar e Marcus Accioly.

Um curso sobre poesia épica no século XX será ministrado pelo mesmo Saulo Neiva no Espaço Pasárgada, Rua da União, no dia 8, das 9h às 12h. Mas para essa pedida é necessária a inscrição, gratuita, e são apenas 30 vagas. Interessados de última hora enviei e-mail para literatura.secultpe@gmail.com.

Há também o curso Poesia portuguesa e poesia brasileira – conexões, rupturas e potência estética, no domingo (10/6), com o poeta lusitano Luís Serguilha, também pela manhã e com o mesmo esquema de inscrição.

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As Quartas Intenções de Cristhiano Aguiar

Cristiano Ramos, | qua, 11/04/2012 - 10:14
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Mais Quartas Intenções – dicas de leitura da coluna Redor da Prosa! Esta semana, elas vêm direto dos EUA. O o professor, crítico e escritor Cristhiano Aguiar fez uma pausa ligeira nos estudos e nos mandou suas ótimas pedidas. Confiram:

O enteado, Juan Jose Saer.  Falecido há poucos anos, Saer é considerado um dos mais importantes escritores argentinos e latino-americanos da safra pós-borges. O enteado foi uma das leituras que mais me impressionou nos últimos meses. Romance ambientado no século XVI, acompanhamos a história de um navegador espanhol que passa mais de dez anos vivendo com uma tribo de antropófagos da região do Rio da Prata. Mas não esperem nenhum tipo de “exotismo” ou mesmo um relato antropológico: em Saer, todos os elementos narrativos convergem para uma obcecada análise sobre o que constitui o próprio real. É como se os seus personagens entrassem em um transe místico; porém sem qualquer Deus.

Histórias fantásticas, Adolfo Bioy Casares. Esses argentinos são uns danados! Já que falamos em Argentina e Borges, não poderia deixar de divulgar a obra de Casares, um escritores que tenho lido com mais prazer nos últimos anos. Seus contos fantásticos têm sempre um quê de ficção científica, crônica de costumes e muita, muita ironia. Embora em nos contos seu parceiro de quase uma vida, Borges, tenha proposto desafios teóricos e “pós-modernos” à teoria cultural contemporânea (característica que não está presente em Casares), não sei, acho que que as histórias de Casares são mais “narrativas”. Há também uma representação aguçada do mal que me interssa em Casares.

Os invisíveis, Grant Morrison. Assim como meu xará Ramos, eu tenho um lado geek e não poderia deixar de citar alguma história em quadrinhos. O roteirista escocês Grant Morrison é um nome muito famoso no mainstream dos quadrinhos estadunidenses; nos anos 90, quando ainda não era tão famoso, ele criou uma série em quadrinhos chamada os Invisíveis, que misturava literatura beat, pulp fiction, sexo tântrico, conspirações, budismo pop, Marquês de Sade, Kula Shaker e Blur, H.P. Lovecraft, invasões alienígenas, viagens no tempo e anarquismo em histórias de aventuras com fortes referências literárias e psicodélicas.

Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt. Esse livro, que me foi indicado por um amigo escritor, me acompanhou durante boa parte de 2011. Trata-se de ensaios biográficos que Hannah Arendt escreveu sobre Brecht, Benjamin, Rosa Luxemburgo, entre outros personagens que viveram momentos turbulentos no século XX. É uma aula de como compor um personagem. Veja o retrato vívido que Arendt faz de Brecht, por exemplo. É tocante perceber o quanto ela o admira como artista, mas essa admiração não a permite perdoá-lo por ele ter se aproximado do totalitarismo nascido na esquerda.

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As Quartas Intenções de Sidney Rocha

Cristiano Ramos, | qua, 04/04/2012 - 13:23
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As Quartas Intenções – espaço da coluna Redor da Prosa dedicado a dicas de leitura e eventos – esta semana, chegam com o escritor Sidney Rocha, autor de Matriuska (2009) e O destino das metáforas (2011), entre outros. E, como sempre, ele não economizou franqueza ou bom gosto. Confiram:

De Profundis, de George Trakl, é viagem sem volta. Rainer Maria Rilke leu Trakl. Aprendeu pouco. Tivesse lido direito teria se tornado poeta melhor. Por aqui, pouca gente leu Trakl. Só isto explica o concretismo ter prosperado no Brasil. Heidegger leu Trakl. E pirou. Trakl talvez possa ser comparado somente a Rimbaud (esse ninguém mais lê) ou Blake. Havia um bêbado em Juazeiro do Norte que recitava Blake. Mas, Georg Trakl, duvido alguém recitar sem caírem muitos raios sobre sua cabeça.

Mal comparando com a cantora bêbada, Winehouse, e não com A cantora careca, de Ionesco, ele também morreu aos 27. Overdose. Em 1914.

No Brasil, saiu pela Iluminuras, em 1994.

104 páginas de Delillo ou 856 páginas de Bolaño? Vivo berrando o nome de Don Delillo em culto de crente e em rodas de xangô. Porque os seus personagens fazem exatamente o que ele quer. Sem frescuras e sem transes de autores no mínimo românticos. Em Ponto ômega (2011), ele “desaparece” com personagens como bem entende e lida com o tempo bem melhor que Bolaño, o suficiente para deixar leitores de 2666 (2010), como eu, desorientados alguns até hoje. Para mim, a literatura contemporânea americana é uma das mais afiadas do momento, e não tem a ver com o 11 de setembro, essa xaropada nacionalista deles lá, nada disso. Nem ao fato de Cristhiano Aguiar está morando por aquelas bandas. Tem a ver com narrativa, no duro. Ali está o ômega. O ponto. Pra Delilllo.

Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1982), de Antônio Geraldo da Cunha. Não tem papo mais blasé do que um magote [mogote XIV, magot XIV, do basco mokoti] de subescritores vomitando aforismos [amforismo XV, aphorismo XVI, aphoristicós, do grego] tipo “eu lido com as palavras”, “viva le mote just”. Prefiro antes entender a história das palavras para contar minhas histórias um pouco melhor. Sabendo de onde vêm, talvez as respeitem mais. Melhor que muita ficção por aí, neste dicionário dá pra descobrir como a “Virgem Maria [virgê he Maria] tem três entrepretaçoões em tres lingoagêns. Em abraico enterpretase strella ou lumiador do mar. Em latim, mar amargosso, em lingoagem syria quer dizer senhora.” [1495 Vita Chisti f. 15].

Penso que o autor já morreu.

Longitude, de Dava Sobel . “Stamos em pleno mar... doudo no espaço” — Todo mundo hoje tem googlemaps e GPS. Quero você se virar no século 18, quando as grandes embarcações perdiam o rumo logo que se afastavam da terra e iam, às cegas, sem comida e doentes, parar, por exemplo, no Brasil. O maior desafio científico da humanidade era se ligar nos “mares nunca dantes navegados”. O dilema atormentou Galileu, Isaac Newton, Rutheford (de quem eu sentia saudades, porque só ouvira falar dele nas aulas de química), Kepler; só a nata da academia científica da época em meio a uma ciumeira improdutiva danada. Coisa antiga, claro. Se dependêssemos da academia, estaríamos em pleno mar ainda. Só viajamos de um lado pra outro, a maioria das vezes sem a menor necessidade, por conta de um simples relojoeiro, John Harrison, um homem sem pretensões, mas com uma tara terrível por precisão e pelo mundo prático. Sem ele, latitude e longitude seriam ainda palavras abstratas. E como Dava Sobel conta esta história merece prêmio que nenhum ficcionista de hoje ganharia.

O livro é de 1995 e Sobel ainda vive.

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